– Alô, gostaria de falar com Fulano.
– Quem deseja?
– É Sicrano.
– Sicrano? Nossa, há quanto tempo.
– Uns bons vinte anos, né? Mas tô de volta, o bom filho à casa torna.
– Então seja bem-vindo.
– Bom de ouvir, meu camarada. Aliás, a primeira coisa que fiz questão de arranjar foi o teu telefone. O Mengano me [...]
Posts Tagged ‘escrever é difícil…’
Não vai dar não [1]
Xifópagos
Entraram de mãos dadas, dela a esquerda. Um belo casal, todos concordariam, desses espécimes que, à primeira vista, parecem flutuar sobre o chão, transportados por uma daquelas nuvenzinhas onde pequenos e rubicundos anjos tocam harpa e flauta doce, lugar comum em quadros da Renascença e nas capas dos cadernos escolares de algumas secundaristas japonesas. E [...]
Matemática
Há quinze anos te espero. Não catorze; não dezesseis. E nem adianta fingir. É de você que eu falo, Clara, de você, que sempre soube de mim, do que me era mais caro. Sim, já são 5.478 dias — porque não esqueço dos anos bissextos que somam três dias mais ao buraco que você deixou [...]
Raílda
— Raílda?
O sorriso largo disse que era. E se acontece de uma porção de gente nunca ter ouvido esse nome, não era o caso dele. Aquela foi apenas a primeira pronúncia do primeiro dia da imensidão que ainda viria, acento reforçado no i, no estacionamento do Pavilhão de São Cristóvão, ao lado do Adegão Português.
Chamavam-no [...]
Um sujeito menor
Pouco trágico, pouco indulgente, pouco industrioso. Apoucado, exceto de mornidão.
Um miserando.
“Sempre me surrupiaram o cimo!”, barrocava. Sua atividade diária: ver quantas vezes chegara atrasado, quantos à sua frente faziam das ideias obras. Resultado: retardatava, até no imaginado.
Creditava a sua desdita aos vizinhos. A começar pelos do berçário, que certamente urraram no tom que desviara [...]
Sócrates
Tinha três ódios e um mau caráter. Os ódios: filosofia, futebol e o próprio nome. Por pura escrotidão, resolveu se matar no aniversário do pai. À falta de cicuta, apelou pro formicida. Em vão. Hipócrates, o pai, caprichou na lavagem estomacal e encheu-o de sopapos.
Não melhorou o caráter.
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[Mais um texto republicado. Que vergonha, eu sei, [...]
Mesuras
“E o que temos para assistir hoje?” perguntou, a meio metro dele.
“A mim, ora”, só um quarto de graça no tom, pouco para esvaecer o quebranto.
“É bom. Gosto de te ver”, e o meio metro cortado à metade, estancado o desalento, e o amor, ah o amor, desmedido, outra vez.
Koan
“Trem parador com destino a Deodoro. Próxima estação, Engenho de Dentro”. Queria mesmo é que esse anúncio fosse com a voz daquela moça já não tão moça do aeroporto, como é mesmo o nome?, ah, da Íris Lettieri, e todos os pêlos eriçaram só de lembrar. Não era. Claro, o que ela faria ali, a [...]
Ioga
[Republico um texto antigo, por pura falta do que dizer.]
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Foi logo depois que a van encostou à direita do meu carro naquele inferno de engarrafamento e o cara falou alguma coisa que eu não gostei porque ele olhou de cara feia e olha que o cara já era bem feio e por isso mandei ele [...]
Amigo [versão completa]
[Arte: Sizenando, um presente e tanto!]
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Além de laço de cadarço, só conhecia nó cego. Foram quatro, um para cada mão e pé, todos bem firmes na cadeira. Deu tremedeira, puro cagaço de algo sair errado, e resolveu checar. Todos corados, ufa!, bom não ter que afrouxar. E a mordaça?, a respiração vai bem? Parece que [...]
Amigo [4]
[A primeira parte está aqui; a segunda é esta, e a terceira está aqui.]
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— Voltei pra tua terra outra vez. Vi a Leila, outra vez. … Ouvi a versão dela. A única, pois de você, zero. Eu lá, cheio de saudade, feliz da vida, doido pra saber de todo mundo, e ela me solta, do [...]
Amigo [3]
[A primeira parte é esta daqui e esta é a segunda.]
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Botou as mãos na altura dos rins e levantou a cabeça, olhos fechados, alongando o máximo que podia. Não demorou a perceber o sadismo do gesto, o outro lá, horas na mesma posição.
— Vou afrouxar um pouco as tuas mãos, mas não tenta fazer nada [...]
Amigo [2]
[A primeira parte é esta daqui.]
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— Calma, não se assuste — frase idiota, porém eficaz, pelo menos por encerrar os gemidos e diminuir os inúteis esforços do preso para soltar-se daquela cadeira; e, por outro lado, para que começasse logo a entender que merda era aquela. — Não fique tentando sair, você só vai é [...]
Amigo [1]
Além de laço de cadarço, só conhecia nó cego. Foram quatro, um para cada mão e pé, todos bem firmes na cadeira. Deu tremedeira, puro cagaço de algo sair errado, e resolveu checar. Todos corados, ufa!, bom não ter que afrouxar. E a mordaça?, a respiração vai bem? Parece que sim. Pingou uma gota de [...]
Gigante vermelha
Abriu os olhos devagar, recolhendo as pálpebras numa delicadeza só. Quase um gato angorá, só faltava ronronar. E o jeito de se espreguiçar? Pareceu coisa de método Stanislavski, ou exercício de terapia corporal, nunca fizera nada parecido. A vida toda pulara da cama, de supetão, na pressa de pagar uma dívida com o mundo, como [...]
Resistiré
Pequeno, daria para imaginar que se escondia. Estando um pouco à esquerda dos demais, a impressão era de não querer chamar a atenção, pedindo que todos passassem à sua frente. Se bem que essa prerrogativa não lhe pertencia. Cabia-lhe permanecer quieto, comportado, deixando para qualquer outro as decisões sobre o seu futuro.
Um outro qualquer, tão [...]
Um erro…
[A propósito da estória que vem sendo contada na série "Um começo"]
“Chega, Pedro. Esse fiapo de vida que você escolheu levar te deixou mixuruca, chinfrim. Tá dando nos nervos te ver defendendo até a medula esse quase nada feito o teu. Não, nada disso tem a ver com o teu pai. O meu irmão nunca [...]
Marulhos
Notou o choro ao cruzar por Ela, e mesmo sem atinar o porquê do nariz vermelho e daquelas bochechas ensopadas, ficou triste. Triste, de rumo descalibrado e um desgosto cada vez mais seu, salvo o fio que brotou do meio de sua coluna, que contorcionismo algum daria conta de alcançar, desnovelando-se até aquelas costas alvas, [...]
Insone
Durou um minuto. E nele vi cansaço, inquietação, receio. Derrota, também.
E o desgaste dos ossos, a arritmia, o fôlego em falta. Todos teus.
Você na penumbra, naquela pose crucificada, três ou quatro dedos de cada mão agarrados à tela protetora de tragédias que envelopa a tua varanda. E me apiedei.
Um minuto.
E no seguinte, você acendeu aquela [...]
Una Giornata Particolare
Não era dado a oráculos. Contentava-se com o Pariscope, comprado religiosamente às quartas-feiras na estação Saint-Paul. Com ele previu que assistiria ao Réquiem de Mozart naquela noite, desta vez com o chœur et orchestre de Paul Kuentz, na Salle Gaveau. O número 45 da rue de la Boétie dava-lhe a opção do metrô, baldeação para [...]
Tarde
…
— Um pouco culpada, sim. Só um pouco, só por causa dos meninos.
…
— Não, nem tente. Eu não quero entender. Ainda não.
…
— Eu sei que dói. Não sou essa escrota que você pensa, dói em mim também.
…
— De novo essa história?!? Não me compare, porra!, não sou a imbecil que disse aquilo, não precisa [...]


