Uma quinta qualquer na rotina de um hospital público, meio pobre, meio descascado, meio velho, condição semelhante à de inúmeras instalações hospitalares do país.
Vamos?, disse o doutor P. E lá fui eu assistir à minha primeira intervenção cirúrgica, pela também primeira vez na condição de espectador e não mais na de paciente, coisa que experimentei [...]
Posts Tagged ‘histórias’
Foi quinta-feira passada
Gente reta
Dr. J., figura ímpar, que odiava que o chamassem pelo prenome. Décadas atrás — provavelmente contando com mais de sessenta anos —, batem em seu carro. O sujeito escafede-se, mas Dr. J., contando com a sua prodigiosa visão periférica, alcança ver a placa e anota-a. Por tortuosos caminhos consegue o telefone do fujão, sabe-se [...]
Fora da nova ordem mundial**
Há mais de uma eternidade aguardava essa foto. Chegou ontem, e só agora comecei a processar parte do que pensei quando soube da história em torno dela.
Fiquei na dúvida se é um ponto ou um acento agudo o que aparece em cima do “i” de Francis, o único que assinou sua carteira de identidade. E [...]
Histórias de amigos de amigos
André careca (o “André” não sei de onde veio), tricolor doente — o que no Rio quer dizer ser Fluminense, coisa que todos os que viram a final da Libertadores suponho que já saibam —, perdeu os dentes da frente num de seus inúmeros acidentes de carro (se contados, vira epopéia).
A ponte que lhe fizeram [...]
Raciocínio virguliniano
Revendo um velho post sobre histórias familiares, assaltou-me uma lembrança, estória contada às crianças que teimavam em não dormir.
Dizia-se que Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, era temente a Deus, e que por tabela, poupava a vida dos padres. Até onde isso é certo, não sei. Conta-se também que portava um longo punhal, [...]
O casal do 602
1986. Cidade do México. Três e meia da manhã. Gritos. Acordo, vou à cozinha, de onde consigo ver a janela do meu quarto e a dos vizinhos de baixo — moro no 702. A cena me assusta: ela, de camisola curta, ar transtornado, perambulando à frente da janela; dele, só escuto a voz. Os gritos [...]
Uma casa japonesa com certeza
Lá se vai quase um ano do primeiro sarau literário de que participei. Logo eu, que sempre vi nesses eventos um cheiro de patchouli, aquela modorra setentista, cheia de batas indianas, ponchos peruanos, “chinelas” de corda com sola de pneu, terapias de grupo e antiginástica, além de discípulos do Chacal vendendo suas “puisiazinhas” no Baixo [...]
Manhã
5:30 a.m. Quebra-se o silêncio, enquanto ele se aprontava para trabalhar. Um arremedo de diálogo, vindo do apartamento abaixo do seu.
— Não, por favor, me deixa sair!— Porra, eu já falei, você disse que topava!— Mas é que cê falou em inglês, num entendi. Se tivesse dito em italiano, culo, eu tinha dito que não [...]
Rapé
Primo distante por parte de mãe, de passagem pelo Brasil, vindo diretamente de “Maiame”. O lugar? Santiago do Iguape, foz do Rio Paraguaçu, Baia de Todos os Santos. (Não se dê ao trabalho de procurar no mapa; pouco provável de achar.)
Ele chega em grande estilo: num Simca Chambord conversível — sei lá se era de [...]
Carta ao filho
Recebi por e-mail esta carta do Luiz Fernando Vianna, dirigida a Henrique, seu filho. Está em seu blog, “a vida do meu filho”, cujo título espero que atraia, mais do que afaste, algumas das pessoas que freqüentam este espaço.
Queria que a carta e o próprio blog não passassem de um exercício de ficção literária. Não [...]
Cenas
A empregada volta da feira, com cara de poucos amigos.
— Que foi, Deise, aconteceu alguma coisa?
— Ah, uns cara lá da barraca do peixe, falano umas coisa tudiruim…
— Mas o que foi, criatura, fala logo!
— Eles gritaro: “Que pavão!”
— Pavão? Como assim, criatura, o que isso quer dizer?
— Oras, dona Régiâne, é só a senhora [...]
Parece coisa do além
Em meados de 1944, contando com 33 anos, três filhos e uma fiel clientela em seu consultório médico de Teófilo Otoni, Dr. J. encasqueta que é sua obrigação patriótica alistar-se como voluntário na 2ª Guerra Mundial, desconhecendo não faltar tanto assim para que a guerra acabasse. Nem vem ao caso especular sobre motivações de qualquer [...]
Mescalina, psilocibina e azeite de dendê
Rodoviária de Nanuque, nordeste de Minas, 6:17 a.m. Ônibus para Belo Horizonte, só às oito e meia. Cadú e a irmã — hoje não se dão bem, há doze anos sim —, sonolentos da maratona iniciada em Itupeva (três e meia da madrugada), léguas de chão de terra batida atrás. Levanta-se ela e compra um [...]
Tomándonos el pelo
[História ouvida nos anos 80, sobre fatos dos anos 60, a respeito de alguém de quem não tenho notícias há séculos.]
A agitação psicomotora diminuíra, e começava a se entediar daquela temporada de internação, a segunda do ano. O tédio só não se instaurara de todo porque havia algo que não lhe saía da cabeça. Resolveu [...]
Sinais de inquietação, pouco antes do alarme
Na noite anterior, viu que às unhas do pé urgia um corte. Pegou o seu canivete suíço de mil e uma utilidades, abriu a de número três e pôs mãos-à-obra (dos pés), enquanto assistia a um programa qualquer de televisão. E por fim livre das aparas, dormiu contente.
Deu de acordar satisfeito, e mais satisfeito ficou [...]
Samba de uma nota só
Era uma vez… (Certo, não é a maneira mais original de começar, mas dê um desconto, que a história é antiga.) Então, dizia eu, era uma vez um sujeito, amigo de escola do meu pai, que gostava muito de história. E da matéria, tinha especial apreço pelos fenícios (diria até que se tratava de [...]
Sintática, semântica e pragmática
Dispensem a década; já faz tempo. O ocorrido deu-se na Colônia Juliano Moreira, Jacarepaguá, um dos três grandes depósitos humanos por lá construídos para afastar dos olhos aqueles que incomodavam, por “diferentes”, no tempo em que Jacarepaguá era longe.
Havia então vários internos que, estando lá há tanto tempo que não se concebia o lugar sem [...]
Como Johnny Weissmuller
Por conta de um post para lá de sério e preocupante que o Pedro Doria colocou hoje no seu Weblog, resolvi pôr aqui uma velha história, com o propósito de aligeirar os espíritos. E para os mais novos — Nat e Monsores, para começar… —, que provavelmente nem têm idéia de quem foi o Johnny [...]
Que ladeira é essa…
Almoço de domingo, tempos atrás.
Início dos trabalhos: dois pastéis de camarão e alguns chopes.
Prato principal: carne assada com arroz, farofa, feijão e batata frita.
Sexto chope, o suficiente.
A vida é mesmo boa.
Sobremesa: uma generosa fatia de pudim de leite condensado. (Para viagem, por favor.)
A caminho de casa, uma parada: comprar ingredientes para um tabule, pois urge [...]
1985
7:19 a.m. E o balanço do prédio lembrou uma rede, dessas vindas do Ceará, compradas com irritação em Copacabana quando saímos para levar algum amigo estrangeiro para conhecer a Princesinha do Mar, e que depois a gente pendura feliz na varanda para o cochilo pós-almoço, daqueles só interrompidos pelo sobrinho de três anos que quer [...]
Kafka
Madrugada atribulada de uma metrópole qualquer. Um homem de pouco mais de vinte anos chega ao pronto-socorro com uma bala de pequeno calibre alojada numa das têmporas, fruto de uma mal-sucedida tentativa de suicídio. A equipe médica, liderada por um jovem plantonista e trabalhando em condições precárias, consegue remover a bala, não sem enorme esforço [...]
Cura
Itabuna, Bahia, década de 40, trinta anos antes chamada Vila de Itabuna, que por força da Lei n°. 807, de 28 de julho de 1910, elevou-se à categoria de cidade, quando nesse então à Rua J.J. Seabra restavam não mais que uns vinte anos carregando esse nome, expropriado no rebatismo para “Avenida do Cinqüentenário”, por [...]
Discussões bizantinas [1]
Do que me contaram, diz-se que em Bizâncio o povo vivia a bater boca sobre, por exemplo, quantas almas podiam se equilibrar na cabeça de um alfinete. E lá em casa, se por um lado o nível das discussões não era tão elevado, por outro, a inutilidade dos temas era de uma bizantinice só. Feita [...]


