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Posts Tagged ‘literatices’

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Li o teu perfil.
Era curto, irônico, e eu sou um curioso da porra.
Não deu nem dez segundos e vi você online.
Arrisquei, te chamei prum papo, o pior que podia acontecer era você recusar.
Mas não, você topou.
Fiz o ar mais blasê que eu conhecia para que não visse meu coração na boca, queria pelo menos uns [...]

Perversão

Um pacto bem simples: entre os dois só a verdade, sempre, não importasse qual.
Ligou para a Lúcia, amiga de infância de Sílvia. Preciso conversar com você, pode ser às sete?, te apanho no trabalho. O primeiro chope ainda pela metade e atacou, sem dó, até ver aqueles Sérgio, pare com isso largados no chão, ao [...]

Pêlo

Branco. Prata. Gris.
Barba. Peito. Braços. Supercílios. Narinas. Púbis-escroto-períneo.
Cu.
Cãs, no cu da alma.

Um erro…

[A propósito da estória que vem sendo contada na série "Um começo"]
“Chega, Pedro. Esse fiapo de vida que você escolheu levar te deixou mixuruca, chinfrim. Tá dando nos nervos te ver defendendo até a medula esse quase nada feito o teu. Não, nada disso tem a ver com o teu pai. O meu irmão nunca [...]

Memórias inventadas

[O tio] A vida é feito um filme, e a memória é que nem foto. Sempre que a gente lembra, é como se abrisse um daqueles latões enormes e tirasse de lá uns rolos de celulóide, recortasse um monte de fotogramas em grupos de três ou quatro, e espalhasse em cima da mesa, da cama [...]

Acelerar, frear

É dada a hora.
Nada original. Afinal, hora ou outra, a vida de todos vira. Mas… era isso, “originalidade”, o que buscava? Veloz na esquiva, pôs a reflexão a nocaute e deu tratos à virada, descartando a obviedade. Viagens, Índia ou Tibete, estilo “busca do Eu interior”? Não, clichês demais. (Não vem não, Santiago de Compostela, [...]

Marulhos

Notou o choro ao cruzar por Ela, e mesmo sem atinar o porquê do nariz vermelho e daquelas bochechas ensopadas, ficou triste. Triste, de rumo descalibrado e um desgosto cada vez mais seu, salvo o fio que brotou do meio de sua coluna, que contorcionismo algum daria conta de alcançar, desnovelando-se até aquelas costas alvas, [...]

Mescalina, psilocibina e azeite de dendê

Rodoviária de Nanuque, nordeste de Minas, 6:17 a.m. Ônibus para Belo Horizonte, só às oito e meia. Cadú e a irmã — hoje não se dão bem, há doze anos sim —, sonolentos da maratona iniciada em Itupeva (três e meia da madrugada), léguas de chão de terra batida atrás. Levanta-se ela e compra um [...]

Quatro anos antes

Outro, o continente. Imensa, a saudade. Tamanha, a dor.
Um telefonema, uma notícia: uma escala, amanhã. Horas, poucas, em trânsito. “Vá ao aeroporto. Tentemos.”
O ônibus, a ansiedade, a chegada, o saguão, o painel: avião pousado, “Passageiros para Montevidéu, embarque, portão A.” E agora?
“Atenção, senhor R., queira dirigir-se ao check-in da companhia S… Senhor R., favor [...]

Una Giornata Particolare

Não era dado a oráculos. Contentava-se com o Pariscope, comprado religiosamente às quartas-feiras na estação Saint-Paul. Com ele previu que assistiria ao Réquiem de Mozart naquela noite, desta vez com o chœur et orchestre de Paul Kuentz, na Salle Gaveau. O número 45 da rue de la Boétie dava-lhe a opção do metrô, baldeação para [...]

Antonio

Por que foi fazer isso, assim, de uma hora pra outra? Quando foi que você resolveu que se instalaria no sofá, ali ao meu lado, enquanto eu via aquele seriado dos médicos e o Dr. Pratt parava de fazer massagens cardíacas naquele rapaz, e a noiva e os pais e os irmãos dele choravam de [...]

Epílogo

Descalço. Oito dedos, vinte e duas falanges flexionadas, equilibrado à borda do parapeito já vencido. Só os mínimos, unhas mal aparadas, permanecem horizontais.
Despido. De dúvidas, de roupas, de medo. A sunga, nova, discreta, traja-o.
Borboletas (um enxame, alvoroçando-lhe o estômago) e orvalho. Deles vinha o arrepio.
Silêncios. E um murmúrio, formando um todo coerente, ao menos para [...]

Um ponto, uma interrogação

Moderno, bem trajado, sem cutículas. Atuação: publicidade e marketing. Globalizado, alto índice de empregabilidade. De repente, pânico! Encontro catorze, hoje, jantar e algo mais… Frente a frente, ela toda ouvidos, entregue. Ele? Última história, ânsias, seu estoque zerou. E amanhã de manhã?

Janela

“Você está triste…”, e não era uma pergunta. “Está tudo bem?”, agora sim. “Está tudo bem sim”, em resposta à voz do apartamento em frente, da janela em frente, praquela dona, praquela moça nem tão moça assim, que bebia o que parecia whisky, pelo menos amarelo era, pelo menos gelo tinha.
(Ela estava bem, diziam-lhe os [...]

“Nada más que un puro”

Hijo mío, só te escrevo para que você pare de se preocupar. Entenda de uma vez por todas: estou bem, muito bem mesmo, nunca me senti melhor na vida. Aproveito e te peço que fale com o teu irmão Raúl, mándalo parar de pôr aqueles capangas atrás de mim, porque aquelas barbas deles, que dão [...]

Devolva-me

— Senhorita, eu gostaria de falar com o Venerável.
— O Venerável está meditando, recarregando-se de prâna, para depois doá-la aos fieis. Mas… não foi a senhora que esteve com ele na semana retrasada, pedindo-lhe que a fizesse sair das trevas e voltar a enxergar de novo?
— Foi sim.
— Então a senhora veio agradecer o milagre? [...]